segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

DETETIVE PERPÉTUO



PRISÃO DE MAURO GUERRA DE MELLO - Mangueira – 1953



Em tempos de "guerra" entre facções criminosas que espelham o terror na cidade, voltamos no tempo 56 anos e vemos que muita coisa não muda, guardando as devidas proporções, é claro. 


O local era a favela da Mangueira e o marginal era Mauro Guerra de Mello, assassino, traficante, isso mesmo naquela época já era traficante de drogas (maconha), viciado e cafetão, cometeu seu primeiro assassinato aos 16 anos, quando matou um policial com um tiro de .45 na boca quando esse lhe dava voz de prisão após a tentativa de roubar um carro. A partir dai não parou mais. Foi internado no antigo SAM (Serviço de Assistência a Menores). Conseguiu fugir e depois durante um carnaval fez vários assaltos com sua turma de bandidos menores de idade. Seus crimes não paravam, assaltos, mais assassinatos. 

Foi autor, com mais 20 menores de um assalto num botequim na Mangueira onde balearam um freguês e mataram o proprietário. Isso em julho de 53. A onda de crimes dele e de seu grupo durou até setembro quando foi preso. Sempre assaltos com mortes. 

Passou a se esconder em diversas favelas, como a Mangueira, Favela do Esqueleto (atual local da UERJ), Morro da Caixa D' Água e ouros locais. 

A policia do Distrito Federal (Rio de Janeiro à época) começou a desbaratar a gangue de Mauro em agosto, chegando à sua prisão em 28 de setembro de 1953. Foi preso no Morro da Mangueira após ser vigiado pelo Detetive Perpétuo e sua turma durante cinco dias. No ato de sua prisão Mauro ainda tentou sacar de sua pistola calibre 45, mas Perpétuo (que era muito mais forte que o franzino Mauro) conseguiu evitar. O comparsa de Mauro, Manoel Augusto da Silva, o Gazinho, foi baleado na operação. 

Mauro foi pra cadeia com apenas 19 anos de idade.

Para ganhar autoridade nos bairros pobres, Perpétuo precisava ser bom, inteligente - e ter muita sorte. Nunca perdeu tempo prendendo pés-de-chinelo, distribuía balas para a criançada, arranjou emprego para dezenas de ex-presidiários, pessoalmente enviava comida e roupas a mães convertidas em viúvas por assassinos que Perpétuo não conseguira prender em tempo. 

Era capaz de sacar sua 45 mais rápido do que qualquer bandido e tinha mira tão certeira que fazia criminosos se entregarem apenas por saberem que Perpétuo estava atrás deles. Por tantas vezes, as balas não o acertaram que parecia que isso nunca aconteceria. Uma vez, subiu ileso um morro, em meio a uma saraivada de tiros, e desceu trazendo dois pistoleiros pelo colarinho. Em outra ocasião, conseguiu prender um pistoleiro que descarregara o revólver disparando contra ele à queima-roupa.

Por um erro, a sorte de Perpétuo do “corpo-fechado” teve fim. Seu trágico destino iniciou quando um assassino condenado, Manuel Moreira, o “Cara-de-Cavalo”, conseguiu liberdade condicional “por um erro” e, assim que saiu da prisão, matou a tiros um grande companheiro de Perpétuo. 

Furioso com a negligência burocrática que prontamente dera liberdade a Cara-de-Cavalo, Perpétuo largou tudo e foi atrás do assassino. Embora o restante da força policial nada conseguisse descobrir, Perpétuo encontrou uma boa pista após dois dias. 

Enquanto aguardava Cara-de-Cavalo aparecer em uma birosca na Favela do Esqueleto, surgiram dois policiais de outro distrito. Ciumentos da fama de Perpétuo, iniciaram uma discussão sobre quem tinha autoridade naquela região e começaram uma briga. De repente, um deles puxou a arma, enquanto o outro segurava por trás os braços de Perpétuo. Assim, sem ter como se defender, Perpétuo do corpo-fechado, 51 anos, foi assassinado a tiros por outro policial.

Naquela época os policiais eram divididos em 3 categorias, delegados, comissários e investigadores e todos, sem exceção só trabalhavam de terno e gravata e seu armamento consistia em um revólver calibre 38. 

Quanto à marginalidade, havia os contraventores, que eram ligados ao jogo do bicho e os criminosos, geralmente assaltantes como os da foto. No caso dos ligados ao bicho, não havia uma resistência armada contra a polícia, mas sim a ameaça de denuncia dos policiais corruptos que eles tinham relacionados em um "gibi" para ser usado no momento conveniente. 

Parte desse quadro mudou drasticamente na época da ditadura militar, quando os chamados presos comuns, quase sempre condenados por crimes banais, eram colocados juntos com presos políticos. O resultado dessa convivência se observa até hoje, com formação de facções, financiamento de armas pesadas pelo próprio crime, táticas de guerrilha, etc. E do lado policial a influência daquele regime também influenciou na criação dos grupos justiceiros, tipo esquadrão da morte, homens de ouro, grupos de extermínio e outros e, mais recentemente nas milícias. 

Só que além disso, o descontrole da criminalidade não se deve somente a prisões políticas geradas pelos governos militares, quando é sabido que Brizola na sua primeira gestão (1982), fez acordo com os bicheiros, liberando o controle total dos morros pelo tráfico e o aumento incontrolado da criminalidade no seu segundo e lastimável (des)governo, sem falar é claro da sua filha que era viciada em drogas na juventude, que fazia das favelas da zona sul no começo dos anos 80 o seu playground, e por causa dela, a polícia era “proibida” de subir.

Esses fatores foram cruciais para a mudança na segurança pública na cidade